
Nos últimos anos, a Petrobras vem construindo uma trajetória consistente na adoção da manufatura aditiva, refletindo uma mudança estrutural na forma como a empresa aborda inovação, manutenção e produção industrial. Em um artigo publicado em 2021, exploramos como a estatal brasileira começou a utilizar a impressão 3D para prototipagem, ferramental e soluções operacionais específicas. Um artigo posterior, publicado em 2025, analisou o lançamento do LABi3D, um laboratório dedicado que marcou uma abordagem mais institucionalizada da tecnologia.
Desde então, o contexto global mudou de forma significativa. Tensões geopolíticas, conflitos regionais e a reconfiguração das cadeias globais de suprimento voltaram a destacar o papel central do petróleo e do gás natural como ativos estratégicos, não apenas como recursos energéticos, mas também como ativos industriais e geopolíticos. Esse cenário reforçou a importância da resiliência operacional, da redução da dependência de fornecedores externos e de uma maior autonomia tecnológica, especialmente para grandes empresas do setor de energia.
Nesse contexto, as iniciativas de manufatura aditiva da Petrobras continuaram a evoluir. Este artigo revisita esses esforços, incorporando novas informações sobre projetos recentes e insights da 3DCRIAR, empresa brasileira de manufatura aditiva e parceira estratégica da Petrobras, com base em uma entrevista recente com Daniel Huamani, CTO da 3DCRIAR, sobre a crescente adoção da impressão 3D no Brasil.
Do LABi3D à aplicação prática
Quando a Petrobras inaugurou o LABi3D em seu centro de pesquisas CENPES, em agosto de 2024, a iniciativa representou mais do que a abertura de mais um laboratório interno. O LABi3D foi concebido como um projeto-piloto para testar um novo modelo organizacional: o outsourcing completo de um laboratório de manufatura aditiva operado por especialistas externos dentro do ambiente de pesquisa da Petrobras.

Diferentemente dos laboratórios tradicionais de P&D, operados por equipes internas, o LABi3D é totalmente gerenciado pela 3DCRIAR. Técnicos dedicados recebem as demandas, realizam atividades de design e engenharia, operam os equipamentos e acompanham métricas de desempenho. Segundo Huamani, o foco do laboratório está firmemente voltado para resultados práticos, e não apenas experimentação.
É importante destacar que o LABi3D é dedicado exclusivamente à manufatura aditiva polimérica. A instalação conta com sistemas industriais de polímeros da Ultimaker, Formlabs e miniFactory, além de capacidades de escaneamento da Peel 3D e softwares da Siemens para design, simulação e análise.
Um tema central do trabalho do laboratório é o desenvolvimento de inventários digitais. Em vez de produzir peças isoladas, o LABi3D apoia o objetivo mais amplo da Petrobras de digitalizar componentes, permitindo que projetos validados sejam armazenados, compartilhados e fabricados sob demanda em toda a organização. Essa ênfase no inventário digital reflete uma transição da prototipagem isolada para a integração sistêmica da manufatura aditiva nas rotinas de manutenção e operação.
Manufatura aditiva terceirizada e implantação regional
Além do LABi3D baseado no CENPES, a Petrobras ampliou o uso da manufatura aditiva por meio de um contrato corporativo mais abrangente que atende às unidades de Exploração e Produção (E&P). Nesse modelo, a 3DCRIAR opera múltiplos laboratórios de manufatura aditiva em terra, distribuídos por regiões estratégicas da Petrobras, incluindo Salvador, Rio de Janeiro, Macaé, Vitória e Santos.

Essas cinco unidades em terra são operadas e gerenciadas por equipes da 3DCRIAR e mantêm forte integração com as operações offshore, trabalhando em parceria com técnicos experientes da Petrobras. Além de produzir peças localmente, esses laboratórios também fazem a gestão e o suporte das impressoras 3D instaladas em plataformas offshore. Essa estrutura distribuída aproxima a manufatura aditiva dos locais onde os problemas operacionais ocorrem, reduzindo tempos de resposta e a complexidade logística.
A lógica por trás desse modelo de outsourcing é simples. Como explica Huamani, a competência central da Petrobras está nas operações de óleo e gás, e não na manutenção de frotas de impressoras 3D. Em suas palavras: “A Petrobras é muito boa em tirar petróleo do chão. Ela não precisa ser boa em operar impressoras 3D. Nosso modelo foi desenhado exatamente para isso.”

Na prática, as peças produzidas por essa rede vão desde itens relativamente simples, como interfaces manuais, até componentes poliméricos funcionalmente mais críticos, incluindo rotores e elementos de direcionamento de fluxo. Um exemplo relevante está atualmente em processo de certificação junto à DNV, uma importante entidade internacional de classificação e certificação, e representa o que Huamani descreve como a primeira peça polimérica certificada da Petrobras a atender requisitos operacionais críticos.
Para a Petrobras, a métrica-chave não é o custo unitário de uma peça impressa, mas o impacto na disponibilidade dos equipamentos e na continuidade da produção. Huamani destaca: “O que realmente importa não é se uma peça custa mil reais ou cem reais. O que importa é restaurar a disponibilidade do equipamento mais rapidamente. Um único dia de produção perdida em uma plataforma pode custar milhões de dólares.”

Essa perspectiva reposiciona a manufatura aditiva como uma ferramenta de resiliência operacional, e não apenas de otimização de custos.
Inventário digital e manufatura sob demanda
Um dos desenvolvimentos mais relevantes da estratégia de manufatura aditiva da Petrobras é o uso ativo de inventários digitais combinados com produção sob demanda. Em vez de manter grandes estoques físicos de peças de reposição de baixo giro, a empresa vem validando projetos que podem ser armazenados digitalmente e produzidos conforme a necessidade.
Vale destacar que esse modelo não é apenas conceitual. Segundo Huamani, ele já funciona no dia a dia das operações, “hoje, as peças que são validadas entram em um inventário digital. Qualquer plataforma pode imprimir essas peças diretamente a partir desse inventário.”
Nesse sistema, as peças são inicialmente produzidas, testadas e aprovadas por meio de análises de engenharia e operação. Uma vez validadas, seus arquivos digitais tornam-se acessíveis em toda a rede da Petrobras, permitindo que diferentes unidades e plataformas fabriquem o mesmo componente sem repetir todo o processo de qualificação.
Essa abordagem reduz prazos de entrega, diminui a dependência de cadeias internacionais longas e melhora a capacidade de resposta em ambientes offshore remotos. Mesmo quando peças impressas são utilizadas inicialmente como soluções temporárias ou para testes funcionais, a capacidade de responder rapidamente a desafios de manutenção gera valor operacional tangível.
Manufatura aditiva, segurança energética e risco geopolítico
A crescente importância da manufatura aditiva na Petrobras não pode ser separada do contexto geopolítico e econômico mais amplo que afeta o setor de energia. A indústria de óleo e gás é particularmente sensível a interrupções nas cadeias globais de suprimento, às instabilidades do comércio internacional e a novos alinhamentos geopolíticos.
Huamani observa que muitos componentes críticos usados em infraestrutura energética são importados, frequentemente de regiões cujo alinhamento geopolítico pode não ser sempre previsível. Ele afirma que “a energia é muito mais sensível à instabilidade global do que a maioria das indústrias. Reduzir a dependência de cadeias internacionais longas e de fornecedores externos está se tornando crítico.”
Nesse contexto, a manufatura aditiva oferece à Petrobras um caminho para estabelecer um certo grau de autonomia. Ao desenvolver capacidades de produção internas e próximas aos ativos operacionais, a empresa reduz a exposição a choques externos, sejam eles causados por conflitos geopolíticos, restrições comerciais ou interrupções logísticas.
Embora a manufatura aditiva não substitua as cadeias globais de suprimento, ela atua cada vez mais como um complemento estratégico, permitindo respostas mais rápidas a eventos inesperados e apoiando a continuidade das operações em ambientes de alto risco.
A parceria da Petrobras com a 3DCRIAR também oferece um ponto de referência útil para empresas sediadas nos Estados Unidos que estejam explorando a manufatura aditiva. Abordagens semelhantes podem fortalecer a resiliência das cadeias de suprimento e, ao mesmo tempo, gerar atividades elegíveis a incentivos de P&D previstos na legislação tributária norte-americana.
O Crédito Fiscal de Pesquisa e Desenvolvimento (R&D)
O Crédito Fiscal de Pesquisa e Desenvolvimento (R&D), hoje permanente nos Estados Unidos, está disponível para empresas que desenvolvem produtos, processos e/ou softwares novos ou aprimorados.
A impressão 3D pode contribuir significativamente para ampliar os créditos de P&D de uma empresa. Os salários de profissionais técnicos envolvidos na criação, teste e revisão de protótipos impressos em 3D podem ser incluídos proporcionalmente ao tempo dedicado a atividades elegíveis. Da mesma forma, quando utilizada como método de melhoria de processos, o tempo gasto na integração de hardware e software de impressão 3D também pode ser considerado atividade elegível. Além disso, quando empregada em modelagem e pré-produção, os custos dos filamentos consumidos durante o desenvolvimento podem ser recuperados.
Seja para criação e teste de protótipos ou para produção final, a impressão 3D é um forte indicativo de que atividades elegíveis ao Crédito de P&D estão ocorrendo. Empresas que implementam essa tecnologia em qualquer etapa de seus processos devem considerar a possibilidade de aproveitar os Créditos Fiscais de Pesquisa e Desenvolvimento.
Conclusão
O uso crescente da manufatura aditiva pela Petrobras ilustra como a impressão 3D pode ir além da experimentação e se tornar uma ferramenta prática de resiliência operacional em indústrias intensivas em capital. Por meio da combinação de expertise terceirizada, implantação regional e inventários digitais, a empresa vem integrando a manufatura aditiva aos fluxos de manutenção e produção de forma a impactar diretamente a disponibilidade de equipamentos e a flexibilidade da cadeia de suprimentos. Em um ambiente global marcado por incertezas geopolíticas e redes logísticas frágeis, a parceria da Petrobras com a 3DCRIAR oferece um exemplo de como a manufatura aditiva pode apoiar autonomia, capacidade de resposta e continuidade operacional.
